23 de Setembro de 2009 – 19h26

Um boliviano ensina ao Brasil o ponto fraco do ‘plano do PIG’

Aconteceu em Caracas, mas o protagonista foi o boliviano Carlos Mesa, ex-presidente de seu país e ex-dono de TV; e o que ele disse cabe como uma luva no Brasil. Foi numa reunião da direita, porém tem tudo a ver esquerda. E, embora o tema fosse mídia, a lição é acima de tudo política: a emergência do PIG (‘Partido da Imprensa Golpista’, na sigla cunhada por Paulo Henrique Amorim) espelha a “falta de partidos políticos”… e tem tudo para dar errado.

Por Bernardo Joffily

Carlos Mesa e o triste (para ele) exemplo da Bolívia

Carlos Mesa foi um dos ex-presidentes latino-americanos chamados para abrilhantar o fórum de emergência da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), na capital venezuelana, sexta-feira passada. O outro foi o peruano Alejandro Toledo.

Mesa foge do script e “rema contra a corrente”

Toledo seguiu o script. Mas, enquanto milhares de venezuelanos desfilavam em protesto contra a articulação continental dos barões da mídia, Mesa “remou um pouco contra a corrente ao advertir os integrantes da SIP dos riscos de os meios de comunicação da região assumirem o papel de partidos de oposição”, segundo relatou o enviado especial da Folha de S.Paulo, Fabiano Maisonnave.

“Quando um meio, diante da falta de partidos políticos [aqui e também nas demais citações, subentende-se que se trata dos partidos ‘deles’], tem de fazer o que os partidos não podem fazer, perde o equilíbrio e a objetividade”, disse Mesa durante o encontro. Claro que sua platéia, toda do PIG, não gostou.

Maisonnave entrevistou o ex-dono da Red de Televisión PAT e ex-vice-presidente da Bolívia no governo de Gonzalo ‘el Gringo’ Sánchez de Lozada, que assumiu o Executivo quando uma insurreição popular derrubou Lozada em 2003, e caíu dois anos depois. Assim, Mesa, 56 anos, explicou na Folha sua subversiva tese, talvez influenciada por ser também historiador.

“O problema dos políticos e dos meios de comunicação que estão em confronto com esses governos autoritários é que seguem pensando com a mentalidade preexistente, partindo do pressuposto de que estão contra ditaduras quando se trata de ditaduras eleitas e, portanto, não são ditaduras”, explicou. “É preciso reconquistar o eleitor. Senão, não haverá vitória”, repisou o ex-.vice de ‘el Gringo’ (criado nos Estados Unidos, onde se refugiu ao ser derrubado, Lozada ganhou o apelido inicialmente devido ao seu forte sotaque).

Pessimista, Mesa dá o exemplo de seu próprio país, onde a oposição quis derrubar o presidente Evo Morales na marra, “não o derrubou e ainda perdeu toda a sua força”. Sua saída: “Uma luta de reconstrução de longo prazo, que deve ser combinada com os meios de comunicação para que estes transfiram o espaço de atividade política aos políticos”. Ou seja: o contrário do PIG.

“Pigificação” da imprensa: também no Brasil

Acadêmicos, politicólogos e comunicólogos debruçam-se sobre o fenômeno da “pigificação” da imprensa. Diante da falência dos partidos conservadores tradicionais, com a vitória de governantes progressistas, a mídia dominante assume a dianteira: passa a pautar os “seus” políticos em vez de ser pautado por eles e, cada vez mais, assume ela própria os contornos de um partido.

Portanto, Carlos Mesa teve sólidos motivos ao fazer a advertência de Caracas a seus correligionários da SIP. Errou ao dizer, em outra entrevista, para O Estado de S. Paulo, que no Brasil é diferente e “há um sistema partidário que funciona”. Não há motivos para abrir essa exceção em seu diagnóstico pessimista, de que “em muitos países houve um colapso dos partidos, que desapareceram, […] e a oposição acabou se refugiando na mídia, que é o único meio de expressão que restou”.

O fenômeno, de dimensões latino-americanas, é perfeitamente visível no Brasil. Não por acaso, foi aqui que nasceu a sigla do novo partido da imprensa: PIG. O PIG é nosso.

Derrotada com José Serra na eleição presidencial de 2002, a mídia hegemônica estreou como partido (depois de algumas avant-premières) em 2005, como alma do escândalo do ‘Mensalão’. Na eleição de 2006, já perdera todo escrúpulo. Vencida outra vez, nem por isso se rendeu, como mostra a longa lista de cascas de banana oposicionistas que pautou desde então (do ‘Apagão Aéreo’ à tentativa de derrubada do senador José Sarney, entre muitos).

No Brasil de hoje, são os barões da mídia que nucleiam e encabeçam a oposição (sempre que o permite a crise da mídia, que os acossa há anos, mas isso já é outro tema). Nesse campo, as agremiações partidárias propriamente ditas, PSDB, DEM e adjacências, funcionam a reboque, como sublegendas. A vanguarda é o PIG.

A ilusão de um partido sem pessoas

Carlos Mesa tem razão ao apontar, na raiz do fenômeno, a “falta de partidos”. Mas a mídia, ao “fazer o que os partidos não podem fazer”, não só “perde o equilíbrio e a objetividade”. Também cria um círculo vicioso, que desidrata e reduz a pó, dia após dia, os já derrotados e combalidos partidos oposicionistas.

O PIG tem uma elevadíssima avaliação sobre si próprio. Não se dá conta, o imbecil, de que dá um tiro no pé ao substituir e solapar a forma partido político – uma aquisição da modernisade pós-Revolução Francesa com 200 anos de consolidação, em suas diferentes variáveis e versões, como intermediadora da relação sociedade-poder.

A demonstração do fracasso está nas tentativas de mobilização que o PIG tem convocado. No ‘Apagão Aéreo’, em 2007, foi o movimento ‘Cansei’: fez uma passeata, de 3 mil pessoas, em São Paulo, e nunca mais foi visto. Na campanha contra Sarney, os ingentes esforços mobilizadores, via blogosfera e Twitter, não lograram reunir mais que algumas dezenas, às vezes nem isso.

É que o PIG, com toda a sua intenção e pretenção de ser partido, toma da esfera partidária a formulação política, joga na opinião pública as suas pautas, denúncias, campanhas, mas mostra-se impotente para fazer o que frazem, bem ou mal, cada um a sei modo, os partidos de verdade: osrganizar pessoas. Ao se propor como partido que prescinde de partidários, o PIG revela seu ponto fraco, mostra que é um retrocesso e prenuncia o seu fracasso.

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